premiados
II noturno
premiados
II noturno
Prêmio Jomard de Ouro - Melhor Filme
Cinzenta: Inventários da Chaminé, de Natália Reis
Há filmes que tocam sobretudo pela dimensão artesanal, pelo peso mesmo de uma manualidade amorosa: assim, temos o cuidadoso trabalho de fazer o fantástico, o onírico e mesmo o histórico emergirem pela experimentação com a matéria visual previamente arquivada. Aqui, da paisagem urbana estática emana certa experiência ambígua do tempo, as páginas de jornal fogem à nossa atenção como de costume, sobreposições chovem cinzas apocalípticas sobre a cidade, a chaminé é transmutada com auxílio do som em entidade misteriosa, assustadora, encantadora de ficção científica – troca gradual de gênero na variação mínima da matéria.
O filme nos oferece uma série de gestos que recuperam o que há de melhor na inventividade técnica dos passados cinematográficos que nunca são coisa mesmo do passado, como a chaminé-monumento não desaparece, insiste rasgando o horizonte de maneira vertical, insiste com a força de todos os sonhos que se tornaram pesadelo ao tempo de sua naturalização, insiste com a força de todos os sonhos que não podem ser inteiramente dispensados porque havia motivo mesmo para os termos sonhado.
Chaminé para além do bem e do mal, o enquadramento crítico não pode corrigir o tanto de vida que se organizou ao seu redor. Vida que vem em gargalhada e desespero, desordem e progresso, toda beleza de nossa ascensão amaldiçoada a lugar nenhum. De maneira bem resumida, Cinzenta: Inventários da chaminé de Natália Reis é um filme comovente e recebe, assim, agora, o prêmio Jomard de Ouro de Melhor Filme.
Prêmio Jomard de Prata - Melhor Filme
Crash, de Gabriela Mureb
Há filmes que reabrem a questão acerca do que é e do que pode ser cinema — do que é e do que não é digno desse nome. Esses filmes, responsáveis por dividir as audiências em dois, sempre existirão, ponto final, simples assim. E, aqui, temos um filme que nos mostra que, apesar de toda a autoevidência do que é filmado, mesmo o maquínico, o burocrático e o industrial se abrem para uma multidão imaginal – um braço mecânico pode nos atingir de muitas maneiras. O filme agride, perturba, estridente e metálico, também é gesto romântico de recuperação de uma experiência sonora peculiar, chamado que recebe como resposta o filme, filme que, por sua vez, terá que ser alguma espécie de chamado. A questão, então, será a nossa resposta e o que virá na multiplicação dos chamados e das respostas. E, no meio disso tudo, oferecemos a Crash de Gabriela Mureb o prêmio Jomard de Prata de Melhor Filme.
Prêmio Lia Letícia - Melhor Performance
Ver Céu No Chão, de Isabel Veiga
Uma performance em cinema usualmente nos comove por nos dar a exata medida daquilo que julgamos conhecer apenas em nossa intimidade – perceber a expressão de algo familiar na dimensão pública e coletiva da sala de exibição é um acontecimento. O que essa categoria de Noturno apresenta ao júri, nesta edição, é o acesso a outra perspectiva, ou a inversão desse método: quando é cotidiano o trabalho de pôr em cena uma tradição, a performance é indistinta da vida e daí vem seu maior valor. Se o cinema pode nos dar também a performance da performance, se pode ver o céu no chão, fazer da praça, da rua, da casa e da janela o palco passarela possível do que se escolhe guardar como mais precioso – e que no limite se verá queimar, por protesto, quando não valorizado.
Menção Honrosa
Braço Forte, de Rubens Fabricio Anzolin e João Fernando Chagas
Pode-se dizer que coreografar o trabalho – o pôr em cena o trabalho do corpo diante da máquina – é em si uma tradição do próprio cinema: olhar para como as relações humanas, as relações entre homens se dão na performance do trabalho é a força do que vimos aqui. A repetição de padrões de masculinidade é algo que se desmonta, com o melhor rigor técnico, e não exatamente na ingenuidade da provocação à virilidade, mas no vazio e no silêncio, no abandono da vida que, sem afeto, não deve se tornar trabalho, apenas trabalho.
Prêmio Tijolinho - Melhor Imagem
2 Assassinatos em Setembro, de Cora Monteiro
Um jogo contínuo de troca de olhares desestabiliza aqueles que derivam sob a luz quente da cidade. Dos olhos à lente da câmera, cria-se um efeito looping, suspenso bruscamente a cada ato de intrusão ao corpo da próxima vítima. Na iminência do crime, ou da satisfação do próprio apetite, inventam-se diferentes formas de endereçar o fim. Corta, olha, corta, sangra. As imagens das vísceras, tateadas, remexidas, desejadas, constroem a aspereza ambígua, voyeurista e polifônica deste filme que concedemos o Prêmio Tijolinho - Melhor Imagem, da 2ª edição do Festival Noturno: 2 Assassinatos em Setembro, de Cora Monteiro.
Menção Honrosa
Grão, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa
"Eu sou brabo". Uma parede imensa, um corpo de costas para a câmera, uma masturbação solitária. O ruído, a excitação, a melancolia, a violência e a solidão que perpassa o curta-metragem são justapostos neste instante, revelando, por implosão e desmonte, o erotismo impotente de uma juventude sugada pelo trabalho, o individualismo e o desenraizamento. "Eu sou brabo". O gozo solitário torna-se, ao mesmo tempo, alívio, punição e fraqueza. É esta força de ambiguidade e desencaixe que também nos mobilizou. A menção honrosa do Prêmio Tijolinho de Melhor Imagem, na 2ª edição do Festival Noturno, é concedida a Grão, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa.